Eu estava no mar, boiando. Metade do meu corpo estava dentro da água e a outra fora. Eu não via terra, só água. Água e aquele céu alaranjado típico do fim da tarde lotado de nuvens. Se não houvesse tantas nuvens eu provavelmente poderia ter um pouco da luz tardia refletindo na água e em meu rosto. Talvez, assim, eu pudesse ver terra, mas não podia. Eu nadava por quilômetros e não achava terra, mas não me cansava. E aquelas nuvens não passavam, nem o sol. Eu vomitava, eu chorava, eu gritava. Nada fazia efeito. Minhas mãos não engelhavam, meu corpo não mudava. Eu estava preso ali. Aquele era meu inferno, mas por pior que fosse eu não queria acordar, pois eu conhecia um inferno pior. O que quebrava a barreira do sono e me perseguia todo dia. Tudo que precisava fazer era acordar. E eu acordei mais uma vez. Meu corpo treme, minha boca se abre, eu bocejo e eu tipicamente penso em como será meu dia, a rotina. Meus pés saem da cama e eu tento chegar o mais rápido possível no chuveiro, ansioso pela água gelada que irá cair no meu corpo e, por alguns minutos, me fará esquecer de tudo. Mas o banho acaba e tudo volta, a rotina. O café está pronto, a mesa está feita. Eu como, ligo meu carro e saio. Atravesso ruas, atravesso bairros, atropelo pensamentos. Sou inteiramente meu trabalho a partir dessa manhã. Meu trabalho me consome. Eu sou consumido e um consumista. Consumo palavrões, engulo problemas, evacuo dinheiro direto no sanitário e meu rosto é usado como papel higiênico dos meus patrões. Nada é meu, tudo é deles. Estou perdido e longe do meu mar, meu quieto e sossegado mar, onde posso nadar por horas a fio sob o sol alaranjado. Eu estou no inferno da minha vida, enquanto meus sonhos carregam meu paraíso em seus ombros e me vejo a dois segundos de enfiar uma faca em meu olho ou de atirar em minha própria cabeça. Eu trouxe esse inferno para mim mesmo, eu os ouvi e trouxe o inferno. As bestas do apocalipse ou o demônio dentro de mim que calou os anjos da libertação e me trouxe a esse escritório podre, com essas pessoas podres. Esses olhos de peixe morto, pessoas sem alma. Eu me olho através do reflexo do monitor, e vejo os mesmos olhos. Peixe morto. Pau morto. Corpo morto.
domingo, 24 de maio de 2009
A Água
Eu estava no mar, boiando. Metade do meu corpo estava dentro da água e a outra fora. Eu não via terra, só água. Água e aquele céu alaranjado típico do fim da tarde lotado de nuvens. Se não houvesse tantas nuvens eu provavelmente poderia ter um pouco da luz tardia refletindo na água e em meu rosto. Talvez, assim, eu pudesse ver terra, mas não podia. Eu nadava por quilômetros e não achava terra, mas não me cansava. E aquelas nuvens não passavam, nem o sol. Eu vomitava, eu chorava, eu gritava. Nada fazia efeito. Minhas mãos não engelhavam, meu corpo não mudava. Eu estava preso ali. Aquele era meu inferno, mas por pior que fosse eu não queria acordar, pois eu conhecia um inferno pior. O que quebrava a barreira do sono e me perseguia todo dia. Tudo que precisava fazer era acordar. E eu acordei mais uma vez. Meu corpo treme, minha boca se abre, eu bocejo e eu tipicamente penso em como será meu dia, a rotina. Meus pés saem da cama e eu tento chegar o mais rápido possível no chuveiro, ansioso pela água gelada que irá cair no meu corpo e, por alguns minutos, me fará esquecer de tudo. Mas o banho acaba e tudo volta, a rotina. O café está pronto, a mesa está feita. Eu como, ligo meu carro e saio. Atravesso ruas, atravesso bairros, atropelo pensamentos. Sou inteiramente meu trabalho a partir dessa manhã. Meu trabalho me consome. Eu sou consumido e um consumista. Consumo palavrões, engulo problemas, evacuo dinheiro direto no sanitário e meu rosto é usado como papel higiênico dos meus patrões. Nada é meu, tudo é deles. Estou perdido e longe do meu mar, meu quieto e sossegado mar, onde posso nadar por horas a fio sob o sol alaranjado. Eu estou no inferno da minha vida, enquanto meus sonhos carregam meu paraíso em seus ombros e me vejo a dois segundos de enfiar uma faca em meu olho ou de atirar em minha própria cabeça. Eu trouxe esse inferno para mim mesmo, eu os ouvi e trouxe o inferno. As bestas do apocalipse ou o demônio dentro de mim que calou os anjos da libertação e me trouxe a esse escritório podre, com essas pessoas podres. Esses olhos de peixe morto, pessoas sem alma. Eu me olho através do reflexo do monitor, e vejo os mesmos olhos. Peixe morto. Pau morto. Corpo morto.
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assim,
ResponderExcluircomo costumo dizer,
decadêcia querida,
desses dias baratos.